Ir no Iguatemi e não passar pela Siciliano é algo similiar como ir à Roma e não ver o Papa. Virou rotina entrar e ir direto à sessão dos livros de arte pois de semana em semana aparece algo novo que não seja a velha e pesada bíblia do Gombrich. E pela primeira vez em meses comprei páginas que não se tratam diretamente de moda.

Punk: The Whole Story é o tipo de livro que muitos colocariam na mesa central da sala pelas boas imagens. Como disse o Jackson, “com o passar da festas, você acaba encontrando várias marcas de copo páginas à dentro”. Não precisei de mais nenhum motivo para manter no alto da estante, ao lado do FASHION NOW, o outro artigo que definitivamente contribuiu para o fim do tédio nesse final de semana.

Pessoalmente, o movimento teve grande influência não só na formação da minha personalidade como na escolha por trabalhar com moda. Como qualquer adolescente confusa no fim dos anos 90, precisava de ideologias utópicas como ótimas desculpas para ser inconsequente e tornar a existência menos miserável. Como as 02 Neurônio disseram no Manual para Garotas em Fúria, “melhor ser punk de classe média do que só uma pessoa de classe média”.

Nessa brincadeira acabei me apaixonando mais pela estética até começar a enxerga-la como uma forma de expressar todas as idéias anárquicas. Daí meu desejo original de ser estilista. Ledo engano da jovem que não realizava a idéia de moda e capitalismo andarem de mãos dadas.

Acabou que pouco à pouco – manifesto à manifesto – fui favorecendo a parte mais divertida e descobrindo que transgressão pode ir além de jeans rasgados, jaquetas perfecto, alfinetes, moicanos, coleiras, meias-arrastão desfiadas e t-shirts cheia de buracos.

Voltando ao livro, foram R$62 muito bem empregados. Há quem diga que só o bunda-lelê (peeeeeeeerdão pela expressão ridícula. não encontrei outra que representasse a foto acima) que Dame Westwood faz com as amigas já valeu a grana. Brincadeiras à parte, a publicação é muito mais do que o bumbum inglês de Vivienne com um “E” riscado.

A parte gráfica foi toda projetada em cima de uma desorganização proposital, simulando as atitudes dos punks originais nos idos de 1970. Capítulos inteiros dedicados a bandas como Clash, Pistols, Siouxsie And The Banshees, Stooges, Ramones e Blondie. Aliás, a própria Debbie Harry escreveu o prefácio.

Uma das melhores sessões é a que mostra a arte das capas de cds e cartazes produzidos na época. Flyers feitos quase ao acaso para divulgar shows no underground de Londres ou NY acabaram por desenvolver um estilo próprio de design gráfico.

Falando em estilo, não poderia deixar de mencionar a parte que mais interessa a todos. Alguns dos símbolos fashion apontados no livro como o pullover de mohair, a “anarchy shirt” ou camiseta com peitos estampados tem origem britânica e não poderia ter nenhuma outra marca do que a de…

Malcolm McLaren e Vivienne Westwood, o que tornou esses itens característicos dos rebeldes from UK. Único item universal da página não poderia ser outro se não a jaqueta de couro, oriunda dos rockers ainda nos anos 50. Mas essa é outra estória.